. Sintaxe à Vontade .

.  Sintaxe à Vontade  .

sábado, 6 de outubro de 2007

. levei um copo dágua para dormir .

No quarto, já despida sobre a cama, não conseguia adormecer. Seu corpo existia além dela mesmo como um estranho. Sentia-o palpitante, aceso. Fechou a luz e os olhos, tentou fugir, dormir. Mas continuou por longas horas a perscrutar-se, a vigiar o sangue que se arrastava grosso pelas suas veias como um animal bêbado. E a pensar. Como não se conhecia até então. Aquelas formas finas e ligeiras, aquelas linhas delicadas de adolescente. Abriam-se, respiravam sufocadas e cheias de si mesmas até o limite.
[...]
Acordou tarde e alegre. Cada célula, imaginava, abrira-se florescente. Milagrosamente todas as energias despertas, prontas para lutar.
[...]
E foi tão corpo que foi puro espírito. Atravessava os acontecimentos e as horas imaterial, esgueirando-se entre eles com a leveza de um instante. Mas se alimentava e seu sono era fino como véu. Acordava muitas vezes durante a noite, sem susto, preparando-se antes de pensar para sorrir. Adormecia de novo sem mudar de posição, apenas cerrando os olhos. Procurou-se muito no espelho, amando-se sem vaidade. A pele serena, os lábios vivos faziam-na quase tímida voltar as costas para sua imagem, sem força para sustentar seu olhar contra o daquela mulher, fresco e úmido, tão brandamente claro e seguro. Depois cessou a felicidade.
[...]
Respirava mal como se dentro dela não houvesse lugar para o ar. Caminhou de um lado para o outro, perplexa com a mudança. Como? – perguntava-se e sentia que estava sendo ingênua, aquilo tinha dois lados? Sofrer pelo mesmo motivo que a tornava terrivelmente feliz?

Carregou consigo o corpo doente, um ferido incômodo, durante os dias. A leveza fora substituída por miséria e cansaço. Saciada – um animal que matara sua sede inundando seu corpo dágua. Mas ansiosa e infeliz como se pesar de tudo restassem terras ainda não molhadas, áridas e sedentas. Sofreu sobretudo de incompreensão, sozinha, atônita. Até que encostando a testa no vidro da janela – rua quieta, a tarde caindo, o mundo lá fora -, sentiu o rosto molhado. Chorou livremente, como se esta fosse a solução. As lágrimas corriam grossas, sem que ela contraísse um só músculo da face. Chorou tanto que não soube contar. Sentiu-se depois como se tivesse voltado às suas verdadeiras proporções, miúda, murcha, humilde. Serenamente vazia. Estava pronta.


Problemas para dormir, HistOrieta?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

(ante)mão!

O teto era branco, o teto era branco. Até seus ombros que ela sempre considerava tão distantes de sí mesma, palpitavam vivos, trêmulos. Quem era ela? A víbora. Sim, sim, para onde fugir? Não se sentia fraca, mas pelo contrário possuída de um ardor pouco comum, misturado a certa alegria, sombria e violenta. Estou sofrendo, pensou de repente e surpreendeu-se. Estou sofrendo, dizia-lhe uma consciência a parte. E subitamente esse outro ser agigantou-se e tomou o lugar do que sofria. Nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer ... Podiam-se parar os acontecimentos e bater vazia como os segundos, vigiando-se atenta, perscrutando a volta da dor. Não, não a queria! E como para deter-se cheia de fogo, esbofeteou a próprio rosto.

. Ocorrerá Clarisses até o final do dia, do mês, do ano, da vida? Ocorrerão Clarisses .

terça-feira, 2 de outubro de 2007

(in) descritível

... Sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas a falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações. Talvez apenas alguns goles ... Ah, eis uma lição, diria a tia: nunca ir adiante, nunca roubar antes de saber se o que você quer roubar existe em alguma parte honestamente reservado para você. Ou não? Roubar torna tudo mais valioso.
O gosto do mal-mastigar vermelho, engolir fogo adocicado.


Não acusa-me. Busca a base do egoísmo: tudo que não sou não pode me interessar, há possibilidade de ser além do que se é-no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que sou normalmente-; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, adivinhava ela.
O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara.

Seus pensamentos eram, depois de erguidos, estátuas no jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.

Fica assim:
Eu com a minha sede; a espera de um mar ou de um copo.
Com a minha tentativa frustada de tentar dizer. Não é porque não tenho as causas, não é porque posso estar "pisando no vital".
Seria porque despertei a minha existência, como não quer acreditar que despertei?

Ah! Quero mais é engolir o fogo adocicado...

... porque não?!


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

(re)conhecendo

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só as exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios-na língua principalmente-, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer. O gosto é cinzento, um poço avermelhado, nos pedaços velhos um pouco azulado, e move-se como gelatina, vagarosamente. As vezes torna-se agudo e me fere, chocando-se comigo. Muito bem, agora pensar no céu azul, por exemplo. Mas sobretudo donde vem essa certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu...Mas é que basta silenciar para só enxergar, abaixo de todas as realidades, a única irredutível, a da existência. E abaixo de todas as dúvidas-o estudo cromático-sei que tudo é perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação a si mesmo. Nada escapa a perfeição das coisas, é essa a História de tudo.

Estou cansada agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há cassas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o Mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono.

Por que ela estava tão ardente e leve, como o que vem do fogão que se destampa?

O dia tinha sido igual aos outros e talvez daí viesse o acúmulo da vida.


Obrigada C.L., por emprestar essas preciosidades. Não saberia expressar melhor que você, tudo isso aqui, que está preso.
Obrigada por me acompanhar esses dias.
1 de 2

sábado, 29 de setembro de 2007

Mundo Novo ?

"Mas a castidade significa paixão, a castidade significa neurastenia. E a paixão e a neustarenia significam instabilidade. E a instabilidade é o fim da civilização. Não se pode ter uma civilização duradoura sem uma boa quantidade de vícios amáveis [...] Meu jovem amigo, a civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintomas da incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se"


"Mas as dificuldades realçam-lhes as delícias"
"Mas há coisas vis que nobremente se suportam"
"O antro mais escuro, o lugar mais propício"
"Quando o sangue está em chamas, os juramentos mais fortes não são mais do que palha. Contém-se mais senão ..."
"Nem a doninha, nem o cavalo fechado em sua estrebaria, se atiram a ela com tão desordenado apetite. Do busto para baixo são centauros, para cima são mulheres. Para os Deuses a parte de cima, tudo o que fica abaixo pertence aos demônios; aí é o inferno, as trevas, o abismo sulfuroso, que queima, que ferve, a fetidez, a corrupção ... puah, puah, puah! Dá-me uma onça de almíscar, bom boticário, para me purificar a imaginação"
"Imprudent Strumpet!"


Óh Admirável Mundo Novo!
Óh Otelo, Hamlet, Rei Lear, Macbeth!
Óh Julietas e Romeus, Trólos e Cressildas, Cleópatras e Antônios!
Óh Sonhos de uma noite ...
Óh, A tempestade! ...
Óh, hoje (só) a lua que está cheia???

terça-feira, 18 de setembro de 2007

(Im) possível

Isso é para a gente ver que nem sempre o que sentimos que pode acontecer, realmente acontece. E que isso pode ser muito ruim ou muito bom. Depende do lado que se vê. Depende do lado que você está. Na verdade o possível é tão ou mais difícil que o impossível de acontecer, se for parar para pensar. O possível é viável, certo, óbvio de ocorrer. Por esse exato motivo, quando o possível não sai como seria óbvio de se acontecer, tudo desanda, dá um nó na sua cabeça. Ao contrário, o impossível é sempre impossível de ocorrer. Quando ocorre, ou: 1) é uma coisa tão fantásticamente impossível de acontecer que você fica igual um abestalhada sem acreditar no que aconteceu; 2) é uma coisa bizarramente impossível de acontecer que você fica igualmente abestalhada, sem acreditar que tenha acontecido.

O ponto é que escutei hoje de uma fonte nada crível, que o grande prazer da vida é fazer o impossível. Achei estúpidamente estranho escutar isso. Achei mais estúpido ainda ficar pensando acerca disso. Mas a resposta foi até que óbvia: é verdade!Minha gente, é verdade!

O impossível sempre me perseguiu. Eu que não abria meus olhos. Agora que me entreguei ao impossível, as coisas da vida tem tomado outro sentido. Um sentido mais amplo, menos medroso. Um sentido mais específico, mais corajoso.

A verdade é que essa coisa toda de ficar atrás de uma armadura e não se jogar ao desconhecido já caiu por terra faz tempo. Só que ainda não tinham me avisado sobre isso. Esse é o ponto. Avisada estou agora. Será que as coisas vão começar a andar?

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

(nova)mente!


"Desse minuto, durante o qual o mundo que o cercava dissolvia-se em nada, durante o qual Sidarta estava só como um astro no firmamento, desse minuto transido de frio e de temores, emergiu Sidarta, mais eu do que nunca, mais firme, mais concentrado. Sentiu nitidamente: aquilo fora o derradeiro tremor do despertar, o último espasmo do parto. E logo tornou a caminhar, em marcha rápida, impaciente, afastando-se da sua terra, do lar paterno, de tudo quanto jazia atrás dele."

Sidarta, Hesse Hermann


Taí uma prévia do que passarei.
Não quero prever, nem fazer apostas altas. Vai ser e tenho que conformar. Passarei e não olharei pra trás. Farei como Sidarta, nesse momento. Provar o gosto de estar consigo mesma. E somente só.
(nova)mente!!!